Extraído de:
http://www.terra.com.br/istoe/1956/entrevista/1956_vermelhas_01.htm

 

hélcio nagamine

 
Sérgio Graff
Como tomar remédios
com mais segurança
Após veto dos EUA ao Arcoxia,
antiinflamatório muito vendido no Brasil,
toxicologista ensina regras para
diminuir os riscos
Por Luciana Sgarbi

A confiança nos medicamentos sofreu um novo abalo. Por 20 votos a 1, o conselho consultivo do FDA, a agência americana reguladora de medicamentos e alimentos, deu parecer negativo ao pedido para vender o antiinflamatório Arcoxia nos Estados Unidos. O Arcoxia é vendido em 63 países, entre eles o Brasil, onde é líder de mercado em sua categoria. Seu uso poderia causar 30 mil infartos por ano nos EUA. O veredicto final do FDA sairá na sexta-feira 27 de abril. Em 2004, o Vioxx, com ingrediente ativo da mesma classe do Arcoxia, foi retirado do mercado pelo fabricante quando também liderava as vendas por aqui. Mas o que deve fazer quem usou ou toma um medicamento que pode ser proibido? Por que é importante evitar a automedicação e ler a bula? Para responder a essas questões, ISTOÉ entrevistou o toxicologista Sérgio Graff. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Toxicologia e médico da disciplina de clínica médica da Universidade Federal de São Paulo, Graff criou uma empresa para orientar os consumidores sobre efeitos colaterais e reações adversas dos medicamentos.

ISTOÉ – Como tomar um medicamento de forma segura?
Sérgio Graff
– Sendo mais criterioso e exigente. Um dos maiores problemas é que no Brasil, tudo se vende sem receitas e com ind icação do balconista. Basta pedir para comprar produtos de tarja vermelha, que precisam de receita, sem nenhuma exigência. Nos Estados Unidos, você pode comprar medicamentos livres de receita até em supermercado, mas não tira uma gota de antibiótico da farmácia sem receita. Isso contribui para o aumento no consumo dos antiinflamatórios. As dores, de modo geral, podem ser tratadas primeiramente com analgésicos. Mas as pessoas não sabem disso e acabam comprando antiinflamatório.

ISTOE – Qual é a diferença entre analgésicos e antiinflamatórios?
Graff
– A resposta inflamatória é uma defesa do organismo às agressões. Ela é dor, rubor, calor e perda da funcionalidade. Provavelmente a dor é o sintoma que mais incomoda. O analgésico diminui a sensibilidade desses receptores.

ISTOÉ – E quando o antiinflamatório entra em cena?
Graff
– Se a dor não cede depois de usar analgésico por um ou dois dias.

ISTOÉ – Depois do episódio do Vioxx, comentou-se que haveria uma alteração na bula do Arcoxia. Isso aconteceu?
Graff
– Não sei. A bula do Arcoxia menciona diversas reações e pede ao paciente para avisar ao médico sobre doenças do coração, que são contra-indicações.

ISTOÉ – O consumidor precisa ter esse tipo de informação para discutir com o médico?
Graff
– Precisa, com certeza. Eu acho que a comunicação nesse campo deveria fluir melhor em todos os sentidos. As alterações nas bulas, por exemplo, deveriam ser rotineiramente comunicadas aos médicos pelo laboratório e pelas agências reguladoras.

ISTOÉ – Como deve se posicionar o usuário quando o médico diz uma coisa e a bula, outra?
Graff
– Vejo muitos casos desse tipo. Os pacientes lêem na bula que se deve tomar o remédio por sete dias, mas o especialista prescreve 15. Está escrito para ministrar na veia, e ele acha que é intramuscular. A bula afirma que não se pode dar para crianças com menos de 12 anos, mas alguns médicos receitam baseados na experiência pessoal. Sempre oriento consumidores que ligam com dúvidas sobre as indicações de uso do remédio feitas pelo médico que estão em desacordo com bula. Eu recomendo que o consumidor se oriente pela bula, que está baseada em testes de segurança e volte a conversar com o médico. Em muitos casos, isso resolve.

ISTOÉ – O sr. já passou por alguma situação como essa?
Graff
– Eu, que me considero bem informado nessa área, outro dia receitei um medicamento – que costumo receitar há muitos anos – e fui informado pela paciente que a Anvisa tinha proibido o uso para crianças. Abri a internet, fui no site da Anvisa e vi que ela tinha razão. Mas eu não tinha visto nenhum comunicado. Como aconteceu comigo, milhares de médicos não sabem um monte de coisas. E deveriam ser alertados dessas decisões.

ISTOÉ – O que o consumidor pode fazer para diminuir os efeitos indesejáveis dos medicamentos?
Graff
– Ele precisa ser mais consciente para se proteger. Em primeiro lugar, não se deve tomar os medicamentos de tarja vermelha sem receita médica. Nada de indicação de vizinho, amigo ou do balconista da farmácia. O paciente não pode esquecer, em nenhuma hipótese, de informar o médico sobre os medicamentos que está tomando. E nem pode tomar outros sem avisar. Isso evita um dos principais males desses casos, os possíveis efeitos vindos de combinações perigosas de ingredientes ativos. Se não entender a receita, o paciente não deve ter vergonha de telefonar para o médico em busca de tradução da letra. O entendimento da letra do médico não pode ficar exclusivamente a cargo do farmacêutico. As pessoas, sobretudo no Brasil, não têm o costume de ligar para o médico para relatar algum sintoma estranho ou incômodo. Isso deve ser feito. Também é importante não utilizar, sem nova orientação médica, um remédio receitado no passado, ainda que os sintomas sejam semelhantes.

ISTOÉ – Qual é o problema com o Arcoxia?
Graff
– Os especialistas consideram que ele não se mostrou superior em eficácia a outros medicamentos existentes no mercado americano. Em segundo lugar, a comparação com outro antiinflamório, o diclofenaco (princípio ativo do Cataflan e do Voltaren) mostrou que ele não traria menos riscos para a saúde do que as opções do mercado. A decisão do FDA foi baseada em um estudo de quatro anos, em vários países, com 34 mil pessoas. O uso prolongado do remédio causaria reações no sangue que facilitariam a adesão das plaquetas, as células do sangue que mantêm o equilíbrio entre o sangramento e a coagulação. Se esse equilíbrio se altera, pode aumentar o risco de formar trombos ou coágulos, a principal causa de infarto e derrame.

 
"Se eu fosse um paciente com doença cardíaca que tomou Arcoxia, iria ao médico para fazer uma avaliação”

ISTOÉ – Como agem medicamentos como o Arcoxia?
Graff
– Eles inibem uma enzima relacionada com o processo inflamatório, chamada de COX-2, e preservam a atividade de uma outra, a COX-1, importante para proteger o estômago de úlceras. O Vioxx, retirado do mercado, o Bextra, e o Celebra, este último aprovado pelo FDA, funcionam de maneira semelhante. Mas os fabricantes afirmam que há diferenças entre as moléculas. Acredito que todos deverão ser avaliados com o mesmo rigor.

ISTOÉ – A exemplo do Vioxx, o problema só foi levantado depois que o medicamento estava sendo comercializado em vários países. Por quê?
Graff
– O lançamento de um medicamento é precedido por pesquisas rigorosas. Custa anos e bilhões de dólares. No início, os estudos se concentram em avaliar a segurança em indivíduos. Depois, quando o remédio é vendido em larga escala e por muitos anos, começa-se a ver possíveis efeitos adversos que não podiam ser previstos. Eles acontecem por causa de fatores genéticos e até de hábitos culturais. Além disso, hoje a medicina também possui meios mais eficientes para detectar alterações causadas por medicamentos.

ISTOÉ – Na prática, o Arcóxia substituiu o Vioxx e se tornou líder de venda no Brasil e em muitos países. Ambos pertencem à mesma classe...
Graff
– O que fica claro e evidente com esse episódio é o grande risco do uso prolongado dos medicamentos antiinflamatórios.

ISTOÉ – Quem já abusou do Arcoxia corre o risco de ter algum problema cardíaco no futuro?
Graff
– Não acredito. Mas, se eu fosse um paciente com doença reumática, cardíaca ou outra doença crônica e tivesse feito uso do medicamento em questão por um período prolongado, marcaria uma consulta com o médico para fazer uma avaliação cardiovascular para ficar mais tranqüilo.

ISTOÉ – O que caracteriza o uso prolongado desses medicamentos?
Graff
– Usar mais de três meses. Tomar antiinflamório durante uma semana por causa de uma dor de dente ou no pós-operatório pode ser considerado uso agudo. Outro problema é tomar por conta própria. No Brasil, apesar de ter tarja vermelha e exigência de receita, tanto o Arcoxia como todos os outros antiinflamatórios são vendidos sem a exigência na maioria das farmácias e até receitados por balconistas.

“Não se deve tomar remédio de tarja vermelha sem receita. Nada de indicação do amigo, do vizinho ou do balconista da farmácia"

ISTOÉ – O diclofenaco, princípio ativo de muitos antiinflamatórios muito vendidos, pode causar distúrbios na coagulação sangüínea. Não há nada seguro?
Graff
– Nada. Quando se toma um remédio, deve-se pesar riscos e benefícios. E sempre fazê-lo com supervisão médica.

ISTOÉ – O paracetamol também já esteve sob suspeita...
Graff
– Ele pode prejudicar alcoólatras crônicos e desnutridos graves. Isso porque essas pessoas têm pouca quantidade de uma substância chamada glutationa, que se liga ao paracetamol para eliminá-lo do organismo. Quando se tem baixos índices de glutationa, a capacidade de eliminar essa substância fica comprometida e forma-se um metabólito tóxico para o corpo que prejudica o fígado. Mas não há problema em usá-lo, por exemplo, contra a dengue em indivíduos normais.

ISTOÉ – O perigo é apenas o uso crônico ou exagero na dose?
Graff
– Não. Quando você expõe milhões de pessoas a um produto, pode haver indivíduos que reagem de uma forma diferente. O motivo disso podem ser as características de grupo populacional. Vou te dar um exemplo. Por que a dipirona é proibida na Suécia e nunca foi permitida nos Estados Unidos e no Brasil provavelmente não existe um ser humano que nunca tenha tomado esse antiinflamatório uma vez na vida? Na Suécia, foram detectados cinco casos de anemia aplástica, caracterizada pela falta de produção de glóbulos brancos. Provavelmente, o organismo dos suecos metaboliza o remédio de um jeito diferente, criando um resíduo tóxico. Um trabalho recente mostrou que no Brasil o número de casos da enfermidade é menor do que em qualquer outro país do mundo.

ISTOÉ – Os estudos contemplam a diversidade das populações?
Graff
– Tenta-se contemplar a diversidade com estudos feitos em vários países, mas há muitas peculiaridades, como os hábitos culturais. Os brasileiros, por exemplo, tomam litros de café. Qual é a reação da cafeína com aquilo que você está dando?

ISTOÉ – Esses testes são realizados após o lançamento do remédio?
Graff
– Não se testa em uma população que consuma um litro de café por dia. Seria impossível prever num estudo clínico ou pré-clínico tudo o que pode acontecer com essa população, em que milhões de pessoas podem estar expostas.